quarta-feira, 21 de abril de 2010

Por não escutar...

Ela veio correndo, com uma tremenda novidade.
Ele veio cabisbaixo, remoendo o dia vivido.
Ela feliz à beça.
Ele melancolicamente fechado em si mesmo.
Ela chegou com os braços abertos para um abraço.
Ele, cabeça baixa, não viu e se sentou.
Ela disfarçou o sorriso que tinha virado sem graça e sentou-se também.
Ele, sem dar a ela chance de falar, pôs-se a reclamar da vida.
Ela, querendo desesperadamente falar, não conseguiu interrompê-lo.
Ele seguiu declamando suas lamúrias.
Ela murchou.
Ele desabafou.
Ela levantou.
Ele nem percebeu.
Ela estava grávida dele.

De A a A

ARTE

Rabiscos de mim.
Isso é o que encontraste.
Trataste de juntar os pincéis.
Contornaste minhas ausências de azul.
Preencheste minhas carências de amarelo ovo.
Desfizeste minhas inseguranças em laranja espremida.

E meu coração, que a todo o momento cri que fosse vermelho,
Mostraste-me que ele era mais que isso, que ele era ruivo cor de fogo.

Definitivamente, entreguei-me à tua arte.
Aos teus desenhos sombrios.
Que revelam.
A mim.
A ti.

domingo, 31 de janeiro de 2010

Tempestade

Lá fora, a chuva. Forte.
Reflete as lágrimas que não caem de me meu rosto.
Minhas tristezas são internas.
Guardo-as e carrego-as comigo.
Enquanto isso, vejo pela janela, lá fora, as inundações.
Celebram o meu afogamento.

domingo, 8 de novembro de 2009

Existência

Uma inquietante sensação de transbordamento. Sinto que sou menor do que aquilo que me habita. É como se todas as minhas próprias impressões me olhassem de fora, perpassando por mim. Como ter sob controle algo que não encontra limite em mim? Minhas sensações são longínquas. São, sobretudo, longitudinais. Começam em um ponto mais ou menos conhecido, mas, ao olhá-las, não vejo um fim. Prolongam-se infinitamente em um espaço que já nem é mais meu. Saem de meu corpo e tomam conta de um universo estranho, camuflado com algo que me é essencial, porque, na verdade, contêm algo que eu carrego internamente. Transmutação de esferas particulares e partilhadas. Entrelaçamento difuso. Ainda assim, tenho certeza que minha inquietude tem uma razão de ser que também está fora de mim, e fora desse algo mais de mim que também já está fora de mim. É uma divisão do que existe em mim e supramim. Porque também está no mundo buscando sua forma de existir.

domingo, 4 de outubro de 2009

Por não pararmos para pensar.

Dia chuvoso. Esta cidade não sabe viver dias chuvosos. Acho que nenhuma cidade grande sabe. Guarda-chuvas espalhados por toda a calçada. Mas nenhum cidadão disposto e apto a desviar o seu próprio guarda-chuva de qualquer outro. Andava entre essa multidão desviando o meu de um, de outro, abaixando para um terceiro, levantando para aquele moço gigante a minha frente, enfim, realizando milhares de malabarismos. Até que, pressionado pela pressa da cidade e enquanto eu desviava dos cidadãos e de seus respectivos guarda-chuvas imóveis a meu lado esquerdo, um homem quis cortar passagem pelo meu lado direito, onde não caberíamos os dois mais os nossos guarda-chuvas e nem uma nova manobra para eu desviar do próprio guarda-chuva dele. Por isso, e confesso que também por estar um pouco cansado de desviar o meu próprio guarda-chuva sempre, mantive o meu próprio guarda-chuva firme em minhas mãos o que ocasionou uma queda de água no moço a minha direita. Saiu puto e com razão, olhando feio pra trás e me xingando até a minha décima geração. Saí puto também, com razão também, “poxa sempre desvio, estava desviando do outro lado e aí vem um passando pelo outro lado querendo que eu desviasse também”... Finquei mão e fiquei encarando-o até ele sumir. E assim, vivemos nas cidades grandes, nos odiando enquanto podíamos nos tratar melhor uns aos outros. Bastava que todos nós cedêssemos um pouco, eu, você, ele. Mas não. O que fazemos, pelo contrário, é marcar posição. O que não nos leva a nada, só a uma maior incompreensão, minha, sua, dele.

Peço desculpas públicas hoje aqui, por mim, por você, por ele.

Pela metade.

Pedaços de palavras.
Metades de frases.
Parágrafos entrecortados.
Discursos divididos.
Incompreensão.

Releituras

Parece que tudo que leio me remete a uma vida que quis viver, mas não vivi. Viagens que evitei, beijos que não dei, abraços que perdi, risadas que esqueci de dar, momentos únicos que não fotografei e que se perderam no instante em que não lhes dei atenção e, clic, foram-se.

Tenho uma ansiedade tremenda de tornar essa vida sonhada em outra, real. Mas não sei se faz sentido buscar algo que já fez sentido em outro lugar. Que direito teria eu de tirar a Alice do seu país das Maravilhas só para dizer a ela que estou atrasada, estou atrasada, estou atrasada... De que adiantaria correr para Cabul se não dá mais tempo de evitar o que já fizeram àquele menino, Hassan. E se eu fosse Amir, o que eu faria? Como atingir a redenção almejada? Todos os nossos atos são passíveis de redenção? Poderia eu viver um amor como o de Tereza e Tomás se Karenin não estivesse aqui?

Tenho medo. Tenho medo de morrer de repente, como algumas personagens morrem em muitos livros, sem a menor explicação e, pior, sem terem feito o que haviam programado para fazer.

Mas enfim, quem faz tudo que programou? Tudo aquilo que sonhou? Dizem que 10% ou menos do que sonhamos se realiza. Dizem não. Acabei de inventar essa estatística. E não sei se acredito nela, assim como não sei se acredito em estatística alguma.

Quem me fará crer?

Sigo lendo, relendo, lendo, relendo, lendo, relendo...